Campismo em Cuenca: serranía, hoces e uma das paisagens mais singulares do interior
Cuenca é, para muitos viajantes que a descobrem, uma das grandes revelações da Espanha interior. A cidade em si já justifica a viagem: as casas suspensas sobre as hoces (desfiladeiros escavados pelo rio) do Júcar e do Huécar, classificadas como Património da Humanidade, são uma imagem difícil de esquecer. Mas a província de Cuenca é muito mais do que a sua capital, e para quem chega com tenda ou autocaravana o território oferece uma riqueza natural extraordinária em todas as direções.
A Serranía de Cuenca é o coração natural da província. A Ciudad Encantada, a poucos quilómetros da capital, é um conjunto de formações rochosas cársicas de formas caprichosas (cogumelos, pontes, elefantes, barcos) esculpidas pela erosão no calcário ao longo de milhões de anos. A nascente do rio Cuervo, no extremo norte da serranía, tem cascatas de tufo calcário de grande beleza que correm entre musgo e fetos num ambiente de bosque fresco e húmido. As lagoas de El Tobar e a lagoa do Marquesado são recantos de tranquilidade e de observação de fauna em plena serranía.
O Alto Tajo, partilhado entre Cuenca e Guadalajara, é um dos desfiladeiros fluviais mais impressionantes da meseta. Durante milhões de anos o rio esculpiu no calcário paredes verticais de cem e duzentos metros de altura, criando uma paisagem grandiosa, com bosques ribeirinhos no fundo do vale e pinhais e sabinas nos planaltos superiores. Os percursos pedestres que percorrem as hoces do Tejo são pouco frequentados e permitem desfrutar de uma solidão difícil de encontrar em espaços naturais mais conhecidos.
A Manchuela de Cuenca e a comarca da Alcarria têm um carácter diferente, mais aberto e luminoso. Os campos de lavanda que florescem em julho fazem desta zona um destino fotográfico de primeira ordem. As vinhas da D.O. Manchuela produzem vinhos de carácter próprio, e as localidades da comarca têm uma arquitetura de pedra e gesso que mistura influências manchegas e valencianas. Alcalá del Júcar, empoleirada sobre um meandro do rio, num meandro improvável, é uma das localidades com mais personalidade de toda a Castela-La Mancha.
A cozinha de Cuenca tem sabores difíceis de encontrar fora da província. O morteruelo (patê de caça escuro e condimentado), os zarajos (tripas de cordeiro enroladas e assadas), o ajoarriero com bacalhau (guisado de bacalhau com alho e batata) e o resoli (licor de café, canela e aguardente) são especialidades locais com séculos de tradição. A trufa-negra da zona de Sarrión e o açafrão de La Mancha também se produzem em terras de Cuenca. Comer num parque de campismo ou fazer um piquenique junto às hoces com queijo manchego e vinho local é um desses prazeres simples que o viajante recorda muito depois de ter voltado a casa.